Leitura fichada ou leitor esvaziado?

Leitura fichada De que você é a favor: Da ficha de leitura ou da cumplicidade leitora?

Em primeiro lugar, um livro infantil nasce para ser lido e tatuado nos olhos leitores das crianças.  Ele nasce para dançar com as meninas leitoras dos olhos das crianças.  Isso!  Em cheio! Acertamos na mosca!  Um livro infantil existe para assegurar a gratuidade de ser, por si só, um presente incondicional.   E fica bastante claro e óbvio que, quando um educador entrega um presente para uma criança, convém que ele não exija nada em troca.  Caso ele esperasse um retorno, o livro, enquanto presente da própria língua materna e da criatividade humana, perderia as suas qualidades intrínsecas em relação à literariedade e perderia também a sua função estética para ganhar uma função utilitária.   Por essa razão, condeno o escritor que, num ato especulativo, escreve para preencher lacunas do mercado editorial e enalteço aquele que escreve pelo prazer de servir uma refeição literária ao leitor, pelo ato de generosidade e afetividade em si mesmos justificados.

Na verdade, caro educador, considero uma situação bastante desconfortável e incômoda quando uma obra literária costuma ser estudada e destrinchada exaustivamente.  Todo o prazer que o leitor colheu da leitura escapa pela tangente e a própria leitura acaba virando uma barganha dentro da escola.  Se o aluno ler, ele recebe nota.  E, se a leitura deixou de ser feita, o aluno, tão-somente, segundo Daniel Pennac, exerceu o seu “direito de não ler”.  Nenhuma tragédia.  Nada de tão grave assim aconteceu.  Não nos esqueçamos de que pode ocorrer de o livro adotado não encontrar nenhum atrativo junto ao aluno.  Estou para conhecer um livro que agrade a gregos e a troianos.  E o fato de ter deixado de ler um ou outro livro não significa que o aluno deixará de ser um leitor brilhante; pelo contrário, isso pode apenas significar que ele exerceu o seu livre-arbítrio leitor.  Talvez essa relutância em ler tenha a sua causa enraizada na certeza de que haverá uma cobrança posterior à leitura, o que, vamos e venhamos, pode inibir o curso de uma relação saudável entre o livro e o aluno.

Penso que, antes de valer-se de uma ficha de leitura, que não carrega consigo a mesma carga emocional do livro, o educador deveria procurar seduzir o aluno para a obra e para as vantagens que a literatura costuma trazer para a existência de todo leitor.  Agindo dessa forma, o educador terá chances cada vez maiores de abrir um espaço natural da presença e da necessidade do livro na rotina de seus alunos, finalmente leitores.  Provavelmente, quando esse aluno concluir os seus estudos formais e deixar a universidade, ele terá o livro como um amigo, um aliado; e mais, ele freqüentará livrarias, sebos, bibliotecas e transmitirá essa paixão para seus filhos.

Se a escola e a família não souberem fazer essa ponte, o aluno preferirá buscar prazer em outros veículos de lazer.  E aí, perderemos a batalha. Teremos conosco a ficha de leitura preenchida pela letra do aluno.  Acontece que esse mesmo aluno não estará preenchido pelas letras do livro. Qual a função dessa vã cobrança? Receberemos a ficha cheia de respostas secas, quadradas, bem formatadas (à altura das perguntas) e teremos um aluno vazio de infinitude leitora, literária.

Para alguns livros, a ficha de leitura funciona.  Para a maioria, pode ter um efeito castrador e desalentador para a prática da leitura.  Mais do que a ficha de leitura preenchida com coerência, estamos atrás de um aluno preenchido com as ambigüidades e as sutilezas emocionais da Literatura. Estamos atrás de um aluno enriquecido pela Literatura, de um aluno que tenha tido o seu universo interior ampliado com a incorporação das incontáveis portas que a Literatura pode abrir para a sua observação, perspicácia e sensibilidade apurada.

O livro didático da disciplina Língua Portuguesa tem a função de ensinar as regras e o mecanismo da língua materna, e nele o aluno pode escrever à vontade, fazer exercícios e ser avaliado.  Já o livro de leitura não carrega a pretensão e a finalidade de ter quaisquer funções práticas e avaliativas. O livro de leitura apenas nutre um grande desejo de oferecer uma experiência única do idioma pátrio e de proporcionar ao leitor/aluno uma reflexão de si mesmo e do mundo que o cerca.  Tudo muito tênue.

Se quisermos que o aluno ame o livro, precisamos edificar, ao longo do tempo, um relacionamento belo e significativo entre os dois, entre aluno e livro.  Não devemos ficar agindo como um pombo-correio mexeriqueiro, dizendo para o livro: “O Fulano não gosta de ler e achou você um chato de galocha”.  E depois dizendo para o Fulano: “Se você não ler, você não vai conseguir fazer a prova do livro, não vai passar de ano e não vai prestar para nada”.  Daí dizemos para o livro: “O Fulano deixou de ler as suas páginas porque você não deu nenhum sorriso para ele e nem ao menos o cumprimentou”.  E de intriga em intriga vamos conseguindo distanciar o livro do dia-a-dia do aluno.

Parâmetros curriculares são importantes, mas a criança é muito mais.

É para elas que escritores, ilustradores e editores fazem os livros.

Um livro não precisa ser fichado.

Um livro quer ser um amigo, ser lido, ser livre, ser incorporado no imaginário do leitor e, acima de tudo e de todas as justificativas mais mirabolantes e convincentes que a inteligência humana possa conceber, um livro só quer ser um livro, ser ele mesmo e poder ler em tantos olhos leitores a aventura de sua alma, a quintessência de sua razão de ser.

(Jonas Ribeiro)