Dislexia e Matemática

Dislexia e matemática Inicialmente, vamos esclarecer o que é ter dificuldades em matemática. As pessoas geralmente falam que não se saem bem em matemática, quando, de fato, querem dizer que apresentam dificuldades em aritmética. A aritmética é uma parte da matemática, está associada aos raciocínios lógicos, perceptivos e sensoriais: formas, tamanhos, espaço, dimensão e quantidade. Alguns disléxicos têm problemas com aritmética e com outros aspectos da matemática, assim como com a linguagem escrita.

A incapacidade de compreensão dos números e das operações, também chama-se discalculia e portanto está ligada a dislexia.

Muitos disléxicos têm dificuldades para adquirirem rapidez e fluência em simples cálculos: adição, subtração, multiplicação, divisão e na tabuada, mas eles poderão ter, não obstante, boa habilidade em matemática. Este fato acontece porque não há áreas do cérebro que só se ocupem especificamente da leitura e soletração. As áreas usadas para a linguagem escrita são usadas também para outros materiais simbólicos, incluindo números, fórmulas, gráficos, diagramas, espaço-tempo, etc. Assim, se há um problema nessas partes do cérebro, será afetado o processamento eficiente de qualquer material simbólico, linguagem e matemática incluídos. Isso significa que as falhas em uma área de aprendizagem podem estar freqüentemente vinculadas a falhas em outras áreas.

O propósito da intervenção baseia-se na estimulação da aprendizagem nas seguintes áreas: manipular, seriar, classificar, transportar, juntar, copiar. Portanto, falamos em desenvolver o pensamento pré-operacional e operacional, segundo Piaget.

Para entendermos melhor, vamos ver quais são as semelhanças superficiais entre a linguagem escrita e a matemática:

ambas são linguagens representadas por símbolos que apresentam pequena ou nenhuma relação com as situações e eventos que eles descrevem. Portanto, ao utilizar uma letra /a/ ou um número /4/, tem-se a representação simbólica, igualmente. Pouco ou nada tem a ver com a representação concreta.
os dois símbolos (letras ou números) têm estruturas e requerem uma ordem e seqüência para serem usados eficientemente.
os dois requerem facilidade verbal, para uma aprendizagem fluente e memorização. Memória a curto prazo é também importante para ambos.
Essas são só algumas das semelhanças entre linguagem e matemática. Quando nós consideramos tudo isso, não é surpresa que indivíduos com dificuldades na linguagem do tipo da dislexia tenham freqüentemente dificuldades em matemática.

Encontramos dois subgrupos de disléxicos que apresentam dificuldades em matemática:

1. Aqueles que compreendem os conceitos mas são incapazes de representá-los no papel, isto é, eles sabem que processo ou operação usar, mas não conseguem fazê-lo com precisão. Por exemplo: Compreendem uma situação problema, sabem até que operação deveriam fazer, mas não conseguem "traduzir" na escrita.

2. Aqueles que têm pouca ou nenhuma idéia a respeito das razões pelas quais os números ou símbolos são usados. Essas pessoas não compreendem os conceitos subentendidos em matemática.

Os resultados das pesquisas em dislexia e matemática variam consideravelmente. De acordo com uma estimativa conservadora, baseada em estudos iniciais (Joffe, 1981), quase 60% dos disléxicos têm alguma dificuldade em matemática, dois terços dos disléxicos encontram-se na faixa etária entre de 8 a 14 anos, 11% dos disléxicos são excelentes em matemática e 29% tem bom desempenho.

OBSERVANDO, ENTENDENDO E TRABALHANDO AS DIFICULDADES

Vamos observar o processo de raciocínio da pessoa para entender seu estilo cognitivo de aprendizagem, e só então intervir de maneira adequada:

A criança está tendo inabilidade para contar números para trás ou para frente, de dois em dois ou de três em três. Salta a numeração, desorganiza-se, fica nervosa, logo quer desistir. A ansiedade e o medo de errar começam a instalar-se em sua vida afetiva. Devemos tentar ajudá-la, melhorando sua auto-estima e confiança. Este comportamento aparece com freqüência, pela fragilidade de percepção corporal-espacial. Como conseqüência, ocorrem alterações na orientação, lateralidade e seqüência. Exercícios que ajudam: Dê os vizinhos (usando como apoio uma régua numerada), jogos que usem dados, dominó, resta um, dama, ludo, brincadeiras e atividades desportivas. Resumindo, atividades que exercitem movimentos para frente e para trás, mas sempre de forma lúdica e divertida.
O aluno, diante de uma conta de adição 8 + 3, por exemplo, começaria a contagem partindo de oito. Porém, o disléxico vai começar do zero ou 1, 2, 3, 4... até chegar no oito e depois começar: zero ou 1, 2, 3. Isto ocorre freqüentemente pela falta de compreensão dos traços gerais do número, da ordem, da estrutura seqüencial. Eles precisam sempre do referencial (início, meio e fim). Usar os dedinhos, palitos de sorvetes, palitos de fósforo, clips, contas, canudinhos, contador, ábaco...
Este mesmo comportamento pode acontecer numa conta de multiplicação: 3 x 4, por exemplo. Ele irá começar por 3 x 1, ... É importante ensinar a multiplicação como sendo uma adição simplificada. Usar um modelo concreto. Precisamos mostrar o modelo mental na prática, nunca decorar a tabuada mecanicamente. O que precisamos ensinar é como se chega ao resultado. Por exemplo:
3 x 5 = 15

Tenho três vezes o número cinco. Coloco um desenho representando o processo. Manter sempre a unidade e dezena nos lugares correspondentes:

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Usualmente, a criança com dislexia poderá fazer confusões nos sinais (+) da adição e (x) da multiplicação. Sugiro usar cores diferentes para destacá-los. Mas a cor deverá sempre ser padronizada.
Às vezes, mesmo com todo auxílio concreto, a criança com dislexia poderá continuar apresentando dificuldades com a tabuada. É preciso reconhecer esta limitação e fornecer materiais que auxiliem seu trabalho mental. O uso de réguas numeradas, calculadoras e tabuadas confeccionadas pela própria criança, é muito mais eficiente que provocar-lhe uma angústia por não conseguir realizar um cálculo mental.
A posição das casas numéricas deverá ser trabalhada com quadros de pregas, jogos confeccionados pelos alunos e professor, material curisineire ou material dourado. Procurar realizar as contas em papel quadriculado, determinando as casas de unidade, dezena, centena e milhar. O uso do computador também é outro recurso válido. Além disso, existem joguinhos e exercícios que podem ser adquiridos e usados, os softwares educativos.
Os problemas de memória a curto prazo e as dificuldades de compreensão do sistema de valor da posição podem causar dificuldades. Um modo adequado de auxílio consiste em guiar o manejo da conta: transportar o número, colocando  o número que foi elevado ou tirado ao lado.

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Outras complicações podem aparecer na divisão. Também é importante usar a forma passo a passo:

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A troca e a inversão dos números também pode ocorrer. Exemplo: 3 por 5, ou escrita em espelho. Requerem atividades com numerais em relevo, de diversas texturas. Nesta situação, o que precisa ser trabalhado são as imagens mentais, funções sensoriais e cinestésicas. Dica: brincadeira de colocar vários números de diversos tamanhos e formas num saquinho e pedir para a criança vendada retirar um. Depois tateá-lo, escrevê-lo na lousa ou no papel.

Assim, estimula-se a imagem mental, a orientação espacial e sensibilidade tátil-cinestésica.

Na área geométrica,  procurar sempre construir as figuras e medi-las para achar o perímetro. O emprego dos blocos lógicos é importante, bem como o uso das diversas formas, dimensões, espessuras, tamanhos e cores. Tentar usar exemplos do dia-a-dia, como uma caixa de sapatos, que possibilita: descobrir as medidas, desmontar e montar, analisar a forma, realizar operações matemáticas para achar suas dimensões, descobrir como foi feita, quanto seria preciso de papel para encapá-la, fazer outra de tamanho e forma diferente, etc.
Sistema Monetário: nada melhor que o tradicional, jogo do Banco Imobiliário. Confeccionar cédulas e moedas de papelão com vários valores, além  de cheques (para aprender a preenchê-los por extenso). Desenhar as cédulas e as moedas observando seus detalhes e cores. Brincar de "Supermercado", estabelecendo valores às coisas. Por consequência, efetuar as operações fundamentais. O raciocínio em problemas matemáticos deverá ser realizado através do concreto para depois efetuar-se a solução. Utilizar calculadoras, contador, ábaco.
Proponho o seguinte esquema conceitual (Fonseca, 1988):

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A satisfação das necessidades e dos valores da criança deve ser altamente respeitada. Sabemos que o corpo é algo absolutamente importante na vida afetiva do ser humano. As relações corporais entre o feto e mãe preparam para todas as noções cognitivas e afetivas futuras. Desta primitiva estrutura simbiótica, surgem as ligações relacionais: o primeiro sorriso do bebê, os sinais de contentamento, as conquistas do seu desenvolvimento gradativamente vão aparecendo.

A importância da outra pessoa no desenvolvimento da noção do corpo é fundamental. A consciência de si se constrói pouco a pouco. É para o outro que a criança dirige todas as suas potencialidades afetivas, que são a base de seus investimentos motores sobre o mundo.

A autora Alícia Fernandes (1998) descreve em seu livro os "corpos-cadernos", sugerindo que o corpo dos alunos teriam como seus representantes simbólicos os cadernos em sala de aula. Ao observarmos atentamente a maneira como cada criança se relaciona com o seu material escolar, sua caligrafia e seu jeito de comportar-se, aproximamo-nos da realidade de como esta criança se sente, uma vez que reflete seus afetos e sua motricidade em seus pertences.

Segundo Piaget, o mundo exterior significa para a criança uma totalidade alimentada por esquemas sensório-motores: ação, objeto, corpo e mundo exterior constituem uma estrutura totalizante. A construção da imagem corporal, feita a partir dos dados afetivos, cinestésicos, vestibulares (equilíbrio), visuais, auditivos e sensitivos insere-se em toda a história vivida do indivíduo.

Pelo exposto, trabalhar a criança, o jovem ou o adulto com dislexia é, antes de tudo, atender às necessidades deste ser humano inteiro. Sendo assim, pressupõe-se um educador criativo/criador, que  investirá nos aspectos: afetivo-relacional, psicomotor, cognitivo, pedagógico e social.

(Autora: Marina S. Rodrigues Almeida)